Por André Vasconcelos
O desconhecimento das novas gerações em relação à obra de muitos abnegados da nossa cultura é algo que precisa ser revertido. O desprezo ao passado e o culto ao novo, a última moda que muitas vezes induz o gosto dos jovens a consumir algo falso, não genuíno, a exemplo desse “forró” falsificado produzido pela mídia. Um desses esquecidos é Ruy de Moraes e Silva. Compositor, Ruy nasceu no Recife em 1º de novembro de 1921. Seu pai, o desembargador João Capistrano de Moraes e Silva, chegou a Triunfo por volta de 1925/1926 como Promotor e depois Juiz de Direito. Ruy tinha entre 02 e 04 anos de idade quando chegou a Serra da Baixa Verde. Sua família correu da peste bubônica em 1926 e em junho de 1934 Ruy volta a residir em Triunfo. Só não fez nascer, mas aqui viveu e fez muitas amizades, entre as quais citamos Sr. Chico Leite e Sr. Napólio. O tenente Zé Carvalho possui no seu rico acervo uma fita cassete gravada por seu tio Homero (pai do também músico Zé Homero) na residência de Ruy. Daí vem o engano como o publicado pelo Jornal do Commercio do Recife quando do falecimento de Ruy de Moraes e Silva informando que o compositor teria nascido em Triunfo. Pelo pouco que pesquisei acredito que Ruy era realmente um triunfense de coração. Para homenagear nossa cidade em seu centenário compôs a música Bela Adormecida. Entre os vários artistas que gravaram suas composições podemos citar: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Carlos Galhardo, Zé Ramalho, Gilvan Chaves, entre outros. Ruy era também considerado um folclorista. Em sua residência no Recife realizavam-se encontros culturais e com a música “Casaca-de-couro” interpretada por Victoria Kinsley, foi premiado na Inglaterra, em um festival de músicas folclóricas. Ao Diário de Pernambuco, Ruy relatou que foi bastante influenciado pelos poemas de Emídio de Miranda. Emídio foi outro esquecido que morreu pobre no então Rio Branco, hoje Arcoverde, poeta este que também chegou a freqüentar Triunfo e homenageou esta Serra Grande do Pajeú. Ruy faleceu em 10/12/1999 e visando tirar sua obra do esquecimento, a professora da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), mestra em literatura e língua portuguesa e uma apaixonada pela cultura brasileira chamada Haidée Camelo e o pesquisador e grande violonista pernambucano Evane Sarmento, o “Nuca”, uniram-se para realizar o projeto de gravar um Cd com a obra do compositor. Esse trabalho de resgate resultou no Cd Recados que conta com as participações de: Dominguinhos, Santana, Maciel Melo, Irah Caldeira, Bia Marinho, Petrúcio Amorim, Ivan Ferraz e Maria Dapaz. Um time de respeito! Em 2005, os festejos juninos e de comemoração da emancipação política de Triunfo foram em homenagem a Ruy de Moraes e Silva. Contando com a presença do irmão do homenageado - o Sr. Aristóteles Moraes, a programação do evento foi composta pelo desfile temático das bandas marciais das escolas triunfenses executando músicas de Ruy (cada escola recebeu um cd com músicas do compositor), como também aconteceu recital de poesias por Antônio Marinho (neto do grande Lourival Batista) no Cine Theatro Guarany, apresentação de Bia Marinho, Haidée Camelo e Nuca, ocasião em que expuseram através de palestra um pouco da vida do compositor e cantaram suas obras e os shows de rua em que participaram Maciel Melo, Banda Forrofiar, Assisão, Val Patriota, Irah Caldeira e Flávio Leandro além dos artistas da terra, grupos de dança, quadrilhas, casamento matuto, oficina e espetáculo de teatro e atividades esportivas. Um São João autêntico, com forró legítimo. Muito ainda se tem a fazer. Que apareçam outras Haidées e Nucas para resgatar outros que são olvidados. Agradeço a Haidée Camelo, filha do Pajeú (Tabira) pelo material que me cedeu. Ela e Nuca nunca mediram esforços no sentido de divulgar a obra de Ruy. São verdadeiros batalhadores em prol da nossa cultura. Termino com um ensinamento de Haidée: “... a força de um povo é diretamente proporcional à força de sua cultura e à capacidade de preservar seus valores.”
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