quarta-feira, 15 de julho de 2009

O brasileiro e o Orkut *

* Artigo do publicitário Marcelo Santos extraído do Diário de Pernambuco.

Uma das explicações que podemos ter para essa necessidade do brasileiro de forte relacionamento e pelo gosto maior por redes sociais é justamente a falta de prática da leitura. No Brasil, apenas 4,5% da população lê jornais. O povo brasileiro é um dos principais usuários do Orkut. Hoje, isso deve-se a nossa cultura de massa ainda muito baseada na "oralidade". Não é a toa que o próprio presidente da República diz que opta por ser informado através de conversas, do que pela leitura de jornais. É o típico representante de uma parcela significativa do povo brasileiro. O Brasil, gostemos ou não, ainda é um país oral. Quem já se alfabetizou lê pouco. Quando lê, pouco escreve. E, quando escreve, pouco circula o que escreveu. Se isso acontece na classe média, imagine em outros segmentos? É muito comum nas estações, trens e ônibus da Europa, as pessoas iniciarem o dia lendo as manchetes e notícias. As sociedades baseadas neste tipo de cultura escrita, tendem a conseguir as informações que querem sem a necessidade de conversar com o outro. Criam, de certa forma, uma cultura independente dos relacionamentos. Se você está em uma encruzilhada na estrada cheia de placas e não tem o hábito de ler, certamente precisará conversar com alguém para saber que caminho tomar. Já aqueles que sabem, passarão por lá sem necessidade de nenhum tipo de contato humano. Em resumo, o Brasil, apesar de todas as campanhas de alfabetização, ainda pode ser considerado um país oral. A maioria da sua população, ao invés de se informar através de livros ou jornais, prefere conversar, ouvir rádio, televisão e novelas. É um fato. No Japão, 65% dos japoneses leem jornal, na Noruega 62,3%, na Alemanha 30%, na Eslovênia 25%, nos Estados Unidos 24,9%. No Brasil temos 4,5% e perdemos para El Salvador (5,8%), Costa Rica (4,9%) e Chile (4,9%). Fonte: Blog do JJ - Publicidade & Marketing.
Note ainda que o brasileiro é o povo que fica mais tempo online no mundo, passa em média, 21 horas e 20 minutos navegando na internet por mês. Seria interessante uma pesquisa para comparar o tempo que o brasileiro fica online com a sua atividade em rede. Nós ficamos mais tempo fazendo exatamente o quê ? Olhando o perfil dos outros no Orkut? Agendando os eventos, baladas e festas da semana? Vendo fotos e bisbilhotando a vida alheia? Enviando e-mails de piadas e sexo? Seria isso? Esta cultura oral é uma explicação, talvez, porque tem tanta gente perguntando nas ruas sobre uma informação, quando ela está numa placa acima das nossas cabeças! A internet com sua capacidade de troca de informações rápidas e instantâneas, trás de volta essa cultura oral. É um pouco, aliás, o que diz o filósofo Piérre Lévy, quando defende que a facilidade encontrada na Internet, faz com que as pessoas deixem cada vez mais de ler, criando-se então, a cultura inútil, baseada nas fofocas, padrões dos galãs de novelas e personagens dos reality shows. No caso do Brasil, isso é facilitado pelo ambiente oral, pois o país ainda não passou para valer, de forma massificada pelo caminho do livro. Assim, a interação - que é a grande marca das culturas orais - se expande na rede, principalmente, em países menos letrados. Some-se aí o clima tropical, a miscigenação, entre outros fatores culturais particulares brasileiros e tem-se uma explicação mais plausível para o uso desenfreado do Orkut. Nosso desafio, porém, é transformar esse ambiente interativo de fofocas em educação e projetos inclusivos socialmente, talvez um dos nossos grandes desafios enquanto nação rumo à rede digital.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO
Marcelo Santos // Publicitário e Diretor da Bandeirantes Mídia Exterior marcelo@bandeirantesonline.com.br

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