quinta-feira, 9 de abril de 2009

Gaita de Tavares cala e se eterniza na memória

Luto // Músico e luthier de 84 anos morreu ontem em Caruaru, de falência múltipla dos órgãos
Uma casinha de porta e janela na periferia de Caruaru era o lugar certo para encontrar o músico, percussionista e luthier Tavares da Gaita, que morreu ontem aos 84 anos, de falência múltipla dos órgãos no Hospital Municipal de Caruaru.
A insatisfação com o destino de sua carreira vinha de longa data e ficava evidente para qualquer um que conversasse alguns minutos com Tavares. Nos seus últimos dias de vida, segundo as filhas, ele estava tranquilo. Chegou a dizer, em entrevista recente, que vontade de tocar não lhe faltava, mas reconhecia que a idade avançada não o fazia mais um músico como no auge de sua carreira. Tavares reproduzia, com seu realejo, o som de um bocado de pássaros: sabiá, galo de campina, entre outros. Também tinha uma variedade incrível de composições próprias, pasmem, em variados gêneros musicais. Tocava blues, frevo, baião, jazz, chorinho, frevo, tudo no andamento correto, mas com muito virtuosismo e criatividade.Com sua morte, fica imediatamente evidente um dos motivos da sua preocupação: ninguém, pelo menos ali na região onde viveu e esteve ao alcance de centenas de músicos jovens, vai continuar o trabalho de criação iniciado por Tavares. Para onde irão as centenas de instrumentos que ele construiu ao longos dos anos em que ficou em casa, à espera de um projeto maior que o tirasse dali? O canto de Tavares, dentro de casa, na época em que ainda era ágil para trabalhar, era o quintal. Lá, em cima de uma pia de lavador velho, ela aprumava um pedaço de madeira e fazia sua bancada. Com objetos de corte e peças recicláveis construía os mais variados instrumentos de sopro e percussão: reco-reco, acoquê, maraca apito, entre outros. Depois de prontos, eram guardados em caixas de papelão no quarto dos fundos. Ficavam à disposição dos pesquisadores e músicos que por acaso passassem na casa de Tavares à caça de novidades.Em 2007, foi candidato a patrimônio vivo do Estado, mas não obteve o título. Entre 2003 e 2004 Tavares gravou o que seria seu último registro fonográfico, Sanfona de boca. Foi produzido pelo músico caruaruense Herbert Lucena e hoje pode ser encontrado em alguns sites para ser baixado. O disco abrange toda diversidade rítmica do músico, que nunca havia gravado um disco solo, apenas com os seus registros. Aliás, sem seu consentimento, soube anos depois de um disco seu que havia sido lançado nos Estados Unidos. Em entrevista ao Diario, certa ocasião, Tavares contou que a gravação foi feita por um pesquisador norte-americano, mas ele nunca assinou nem recebeu nada pela produção. Até então, Tavares era músico requisitado nas gravações de artistas regionais como Elba Ramalho, Dominguinhos e Naná Vasconcelos, que chegou a usar vários instrumentos percussivos feitos por Tavares.A relevância de Tavares para a música nordestina está expressa num livro, à esta altura, com quase duas mil assinaturas e declarações de visitantes que passaram por sua casa/ateliê. É uma prova da importância de sua obra, começada lá nosanos 70, quando achou, por acaso, uma gaita e começou a tocar. Tavares também trabalhou como sonoplasta em uma companhia de teatro mambembe e, mesmo tendo se transformado num virtuose no seu instrumento, foi alfaiate, sapateiro e marceneiro. Quando veio a depressão, nos anos 90, quis acabar com tudo. O apoio da família ajudou, mas Tavares não escondia que guardava um rancor. "Queria acabar com tudo, não valia de nada. Mas isso é da vida de artista mesmo. A gente faz, faz, e não é recompensado, daí vem a depressão. A vida de artista é sempre assim de altos e baixos", disse à época de sua entrevista do Diario. Mas Tavares também acreditava em Deus, e muito. Dizia que Ele é quem tinha lhe dado o dom de tocar. Deve estar sendo recompensado agora.

Texto:
Michelle de Assumpção (extraído do site do Diário de Pernambuco)

michelleassumpcao.pe@diariosassociadospe.com.br
Fonte: http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/04/09/viver1_0.asp

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