sexta-feira, 24 de abril de 2009

CANHOTO DA PARAÍBA - UM GÊNIO DO VIOLÃO BRASILEIRO



Ontem estava a ouvir músicas de um dos gênios do violão brasileiro por nome Francisco Soares - mais conhecido por Canhoto da Paraíba. Natural da nossa cidade irmã de Princesal Isabel (PB), lembrei-me que hoje completa 01 ano de falecimento do virtuose paraibano. Como admirador que sou da obra de Canhoto, de maneira alguma poderia deixar de lembrar saudosamente um talento por vezes desconhecido das novas gerações. Anos atrás, em conversa com o maestro Marco César (bandolinista e professor do Conservatório Pernambucano de Música), ele me relatava o fascínio exercido por Canhoto, não somente pelo músico, mas pela simplicidade como pessoa; um ser humano cativante.


Em Guaratinguetá (SP), berço do também virtuose Dilermando Reis, existe um Festival de Violão que conta todos os anos com grandes nomes do violão brasileiro. Oxalá um dia possamos ter um nos mesmos moldes em Princesa Isabel e também em Petrolândia (PE) - antiga Jatobá - local onde nasceu um dos pilares do violão brasileiro chamado João Pernambuco (outro que carece de melhor reconhecimento).

Segue abaixo, um texto do engenheiro e pesquisador princesense Dr. Francisco Florêncio, o qual foi extraído do site http://www.princesapb.com/ . Minha homenagem também a cidade de Princesa Isabel, pela qual tenho um grande apreço.


CHICO SOARES - “CANHOTO DA PARAÍBA”
FRANCISCO SOARES DE ARAUJO nasceu em 19 de março de 1926, na cidade de Princesa Isabel, Paraíba. Exatamente na rua Coronel Antonio Pessoa, 30 - hoje rua Músico CHICO SOARES (CANHOTO DA PARAÍBA). Filho do segundo casamento do seu pai – ANTONIO SOARES DE ARAUJO, com QUITERIA LOPES DE ARAUJO. Família grande, com 4 irmãos e 5 meio-irmãos. O avô de CHICO – JOAQUIM SOARES – era clarinetista. O pai, violonista (e sacristão de profissão). Dois irmãos – LULA e GIA – também eram músicos. Na sua casa reuniam-se os principais músicos de Princesa, como o acordeonista Zé Costa, os violonistas Zé Micas e Luiz Dantas, o saxofonista MANOEL MARROCOS, o regente da banda local JOAQUIM LEANDRO que lhe ensinou as primeiras notas. Na sua casa eram constantes as serenatas e saraus musicais. Pode-se assim entender a origem da veia musical de CHICO SOARES!
Nesse ambiente farto de sons e musicalidade, aos 12 anos, fascinado pelo tocar de violão do pai, ganha como presente deste um violão - que foi destruído num acidente-, vindo somente a ter outro aos 15 anos. CHICO era canhoto e se tivesse que adaptar o violão a essa sua característica, teria que alterar todo o encordoamento do instrumento. Como esse violão era dividido com os demais “tocadores de violão” da família, CHICO terminou se adaptando e desenvolveu aquilo que o tornou nacionalmente conhecido – usar o braço do violão no lado do ombro direito. Daí, anos depois, em Recife, ganhar o nome artístico de “CANHOTO DA PARAÍBA”. Dominado o instrumento, orientado pelo pai, pelo tio e por outros músicos princesenses, ele passou a tocar em festas, serenatas e nas radio-difusoras de Princesa: a VOZ DE PRINCESA E IBIAPINA. Em 1944, com 18 anos, foi levado para Recife pelo frade carmelita FREI CASANOVA, para tentar um emprego na Rádio Clube de Pernambuco. Por saudade, desistiu e voltou para Princesa, de onde só saiu em 1951, já com 25 anos. Contam alguns contemporâneos seus, que CHICO vivia em quase todos os momentos diários junto a seu violão, como se fosse uma extensão do seu corpo e de sua alma! Assim, pode-se afirmar que “Princesa foi o berço e a grande escola onde se moldou e se formou o gênio musical” que foi CHICO SOARES!
Em 1951, levado pelo então Deputado ANTONIO NOMINANDO DINIZ, assinou contrato com a Rádio Tabajara de João Pessoa, onde ficou até 1957. Lá, conviveu com grandes músicos, como SIVUCA e LUPERCE MIRANDA.
Com a companheira MARIA LACERDA (Nazinha), teve 2 filhas - Lourdes e Corrinha - que são nomes de valsas de sua autoria.
Em 1955, com 29 anos, fica viúvo. Em 1957, transfere-se para Recife, onde vem a integrar o elenco da Radio Jornal do Comercio (aquela que falava “de Pernambuco para o mundo”). Em Recife, ele amplia o círculo de amizades com importantes nomes do “CHORO” (um estilo musical). E ganha o nome de “CANHOTO DA PARAÍBA” dado por um produtor do programa de radio “luar do sertão” da Rádio Jornal do Comercio, de Recife.
Em 1959, CHICO vai ao Rio de Janeiro, numa viagem de jipe de 5 dias, junto com amigos e tem o grande encontro com a nata dos “chorões” cariocas, onde causou a mais vívida impressão pela sua técnica inimitável e pela sonoridade e estilo, revelando-se um mestre na arte da composição e um virtuose do seu violão canhestro, no dizer do músico e produtor musical Hermínio de Carvalho. O conhecido músico PAULINHO DA VIOLA registra que foi nessa ocasião, que entusiasmado pela performance de CHICO, ganhou enorme motivação para sua futura carreira musical.
Voltando para Recife, casa-se com EUNICE GADELHA, de quem teve mais duas filhas: FÁTIMA e VITÓRIA, que também são nomes de valsas de sua autoria.
Em 1968, grava seu primeiro disco (LP) – ÚNICO AMOR – pela produtora pernambucana Rozemblit.
Em 1971, grava um segundo disco (LP) – UM VIOLÃO DIREITO NAS MÃOS DO CANHOTO – gravação particular, financiada por amigos e admiradores.
Em 1977, produz seu terceiro disco (LP) “CANHOTO DA PARAÍBA, O VIOLÃO TOCADO PELO AVESSO", pela produtora Marcus Pereira.
Em 1993 e 1994, mais um disco (LP) “PISANDO EM BRASA” e o primeiro CD “COM MAIS DE MIL”. O primeiro pela produtora Caju Music e o segundo pela produtora Marcus Pereira. Ao longo de sua carreira artística, teve participação destacada em muitos outros títulos de discos, além de ter suas belas composições apresentadas por outros músicos.
É a grande fase, o apogeu da carreira, com viagens, tournées, shows, sendo um dos artistas mais requisitados nos eventos musicais do Recife e outros lugares. Era preciso agendar com bastante antecedência para se ter oportunidade de ter o artista nos eventos. Em 1996-1997, em projeto apoiado pelo Banco do Brasil, animado pelo seu Superintendente Regional na PARAÍBA – GERALDO AZEVEDO – que CHICO teve sua última grande presença no cenário artístico, apresentando-se em mais de 50 cidades da PARAÍBA e até em Portugal.
Em 1995, com 69 anos de idade e 51 de carreira artística, aposenta-se por tempo de serviço num pequeno emprego que tinha no SESI de Recife, onde era funcionário da assistência social, e pelo tempo que trabalhou na Transportadora Relâmpago, onde era mantido pela amizade do seu proprietário, para animar os eventos de lazer naquela empresa. Nesse período, CHICO veio muitas vezes à Princesa. Era sempre o grande reencontro. Gerava admiração, curiosidade e encanto com sua maestria. Era a grande notícia. O comentário principal dos princesenses. Em 1996, na Semana da Cultura, por ocasião da data da emancipação do Município, CHICO e MANOEL MARROCOS – outro grande músico princesense – foram as figuras de destaque. Sua última visita ainda saudável foi em dezembro de 1997, a convite de JOÃO MANDU, para participação na Festa da Padroeira. Como escrevi acima, na apresentação, em 2004, CHICO foi a figura central da mesma comemoração oficial, a qual não compareceu por conta da doença, e, em 2006, sua última visita à Princesa, a despedida e, sem dúvida - pelo que testemunhei – uma de suas últimas grandes alegrias.
Em 8 de abril de 1998, aos 72 anos, um derrame (AVC) atinge CHICO com efeito devastador na sua capacidade física e mental. O lado esquerdo paralisado, impossibilitou-o de tocar o seu velho companheiro violão - a “tabuinha” como o apelidava. Falava com dificuldade, não andava e precisava de fisioterapia permanentemente. Somando-se a esta tragédia, uma outra se abateu sobre ele, ao ficar viúvo pela segunda vez. Passou então a viver com a filha Vitória Gadelha até os últimos dias. Morava, nos últimos anos, em Paulista, cidade pernambucana na área do Grande Recife, no bairro Maranguape I, numa casa simples, sem maiores confortos, mas cheia de recordações, principalmente de sua terra natal, assunto permanente em suas conversas e entrevistas.
CHICO tinha como principal fonte de renda uma aposentadoria de seis salários mínimos, que estava longe de cobrir as despesas com as suas sessões de terapia diária. Assim que souberam do seu grave estado de saúde (chegou a ser internado em UTI), vários dos grandes nomes do chorinho e do samba, cariocas e pernambucanos, realizaram no Teatro Guararapes, com produção da Raio Lazer, um show beneficente para o violonista. Estiveram lá desde o seu maior fã, PAULINHO DA VIOLA, ao mitológico ÉPOCA DE OURO (grupo que acompanhava Jacob do Bandolim), ALTAMIRO CARRILHO, e os pernambucanos DALVA TORRES, NUCA, RACINE, CLÁUDIO ALMEIDA, NENÉO LIBERALQUINO. A renda líquida, R$ 27.180,00, transferida para CHICO, foi gasta no tratamento intensivo a que ele era submetido na época.
Em 2002, numa iniciativa inédita no país, Pernambuco foi o primeiro estado brasileiro a instituir, no âmbito da Administração Pública, o Registro do Patrimônio Vivo, que reconhece e gratifica com uma pensão vitalícia mensal representantes da cultura popular e tradicional do Estado. Um dos primeiros agraciados foi CHICO SOARES, junto com outros músicos pernambucanos como Camarão, Lia de Itamaracá e Mestre Salustiano. A cerimônia de entrega dos primeiros 12 títulos de Patrimônio Vivo de Pernambuco, aberta ao público, foi realizada em frente ao Palácio do Governo do Estado (Campo das Princesas), no Recife, às 19 h do dia 31 de janeiro de 2006.
No dia 9 de junho de 2004, durante a cerimônia de reabertura do Projeto Pixinguinha, o Presidente LULA homenageou CHICO SOARES como um dos mais geniais músicos brasileiros. Uma escolha justa, já que no projeto original, a turnê – em 1977 - de CHICO com PAULINHO DA VIOLA foi uma das de maior sucesso. Quando, em 1997, o projeto Pixinguinha foi cancelado na última hora, estavam previstas apresentações de CHICO SOARES com o violonista CAIO CÉZAR.
Em 2004, homenageando à CHICO SOARES, o Governo do Estado da Paraíba criou o Registro dos Mestres das Artes (REMA), conhecido como LEI “CANHOTO DA PARAÍBA”. Esta Lei garante o benefício de dois salários mínimos mensais a artistas de reconhecido valor, cujo trabalho tenha contribuído ao longo dos anos para a formação do patrimônio cultural paraibano. A Lei de nº 7.694, de 22 de dezembro de 2004, foi publicada no Diário Oficial do Estado do dia 16 de julho de 2005. Seu primeiro artigo registrará – de forma indelével – o nome de CANHOTO DA PARAÍBA todas as vezes que um artista paraibano ganhar seu direito mínimo à sobrevivência, dado pela sociedade que dele recebeu sua contribuição artística.
Os últimos anos de vida do grande artista: doente, sem recursos, esquecido do grande publico e protegido de última hora pelo poder público. Mas CHICO também foi grande na dor. Resignado, conviveu com a doença, e guardando seu jeito, seu sorriso, encantou ainda a tantos que o visitava em sua residência.
E assim, passados 10 anos de uma longa jornada de sofrimentos após o AVC que o atingiu, CHICO SOARES – O CANHOTO DA PARAÍBA – deixou esta vida para entrar na história. Familiares, amigos de ontem e de hoje, conterrâneos e admiradores se despediram emocionados, ficando seus restos mortais no cemitério de Paulista. Quem sabe, provisoriamente, até o dia em que os conterrâneos princesenses resgate-os e traga-os para repousar eternamente sobre a Serra da Borborema, em sua terra natal, paixão de sua vida, sua terrinha - PRINCESA ISABEL - que dele foi berço e dele poderá ser último repouso.

2 comentários:

  1. Ontem, houve uma bela homenagem dos filhos de Princesa a seu mais ilustre. Sou autor do "Oração para Canhoto da Paraíba", que pode ser visto em http://www.samba-choro.com.br/debates/1091407338
    Aproveito e deixo o convite para que visite o meu blog
    http://urarianoms.blog.uol.com.br/
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Prezado Urariano Mota, obrigado pela visita e pelo convite. Seu comentário engrandece o blog. Linda a "Oração para Canhoto da Paraíba", a qual já era do meu conhecimento. Parabéns pela sensibilidade. Sonho em ver um bonito festival de violão organizado em Princesa Isabel em homenagem a Canhoto. Oxalá se realize. Volte sempre ao nosso blog e estamos à disposição para divulgar o que achar necessário. Até breve.

    ResponderExcluir